Moda circular: como a indústria têxtil transforma sustentabilidade em estratégia de negócio
EXAME Saint Paul
•17 de setembro de 2026

Moda Circular (Vera Prokhorova/Shutterstock)
A economia circular deixou de ser apenas uma discussão ambiental e passou a fazer parte das decisões estratégicas da indústria.
Na moda, isso significa repensar desde a escolha das matérias-primas e o desenho das peças até a logística, a venda, o uso e o destino dos produtos.
No Brasil, 57% das empresas industriais já adotam pelo menos uma prática de economia circular, segundo pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) de 2026. Entre os benefícios apontados estão a redução de custos e o retorno financeiro.
Na indústria têxtil, essa transformação envolve desafios como rastreabilidade da cadeia, uso de recursos, resíduos, condições de trabalho e mudanças no comportamento de consumo.
Esses temas foram discutidos em um encontro da Saint Paul Escola de Negócios sobre moda circular, com participação de especialistas do setor e mediação de Vanessa Reisner, diretora do Programa Avançado em ESG.
O que é moda circular?
Na economia tradicional, o modelo predominante é linear: extrair matéria-prima, produzir, consumir e descartar. A economia circular propõe reduzir esse desperdício mantendo produtos e materiais em uso pelo maior tempo possível.
Na moda, isso pode envolver:
- Desenvolvimento de peças mais duráveis;
- uso de materiais reciclados ou recuperados;
- reparo e manutenção;
- revenda e reutilização;
- reciclagem de tecidos;
- logística reversa;
- rastreabilidade da cadeia produtiva.
A mudança, portanto, não começa no momento em que uma roupa é descartada. Ela começa no desenvolvimento do produto.
Para Cecília Lobo Araújo, professora especialista em Economia Circular, essa transformação exige uma mudança na forma como empresas pensam produção e consumo.
Rastreabilidade ganha importância na indústria da moda
Um dos principais desafios da circularidade é saber exatamente de onde vêm os materiais e como os produtos foram fabricados.
Cadeias longas e fornecedores espalhados por diferentes países tornam mais complexa a identificação da origem dos materiais, das condições de produção e dos impactos associados a cada etapa.
A rastreabilidade também ganha importância por causa das novas exigências internacionais.
Na União Europeia, os produtos têxteis estão entre as categorias prioritárias para a implementação do Passaporte Digital de Produto (DPP). A ferramenta deverá concentrar informações sobre características, composição, origem, uso, reparo, reutilização e reciclagem dos produtos. A previsão atual é de adoção das regras específicas para têxteis em 2027, embora o cronograma ainda possa sofrer alterações.
Na prática, isso aumenta a pressão para que empresas tenham dados mais organizados sobre suas próprias cadeias produtivas.
No Brasil, iniciativas como o projeto Segue o Fio, em São Paulo, já testam o uso de passaportes digitais em produtos têxteis para ampliar transparência e rastreabilidade.
Circularidade também pode gerar valor para as empresas
A adoção de práticas circulares não precisa ser encarada apenas como custo de adequação.
Segundo a CNI, 40% das empresas pesquisadas apontam a redução de custos operacionais como um dos principais benefícios esperados da economia circular, enquanto outros 40% afirmam já obter retorno financeiro com essas práticas.
Na moda, isso abre espaço para diferentes modelos de negócio, como:
- revenda de roupas usadas;
- aluguel de peças;
- programas de recompra;
- reparo e customização;
- utilização de materiais reciclados;
- reaproveitamento de resíduos da produção.
Durante o encontro da Saint Paul, Renata Del Bove apresentou iniciativas da Pernambucanas relacionadas à revenda e reutilização de peças. O exemplo mostra como a circularidade pode ser incorporada à operação de uma empresa tradicional, criando novas formas de relacionamento com o consumidor.
O desafio de equilibrar preço, escala e sustentabilidade
A transição para modelos mais circulares também impõe uma questão comercial: como conciliar sustentabilidade, preço competitivo e escala?
Empresas que investem em rastreabilidade, fornecedores certificados e processos mais controlados podem enfrentar custos diferentes daqueles de cadeias menos transparentes.
Esse cenário se torna ainda mais complexo diante da concorrência de plataformas internacionais de comércio eletrônico, tema discutido por Eduardo Costa, CEO da Loungerie Intimates e conselheiro executivo da ABVTEX.
Para a indústria brasileira, o desafio não está apenas em produzir de maneira mais sustentável, mas em fazer isso mantendo competitividade em um mercado global.
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O consumidor também faz parte da mudança
A circularidade depende ainda da forma como as pessoas compram, usam e descartam roupas.
A lógica do consumo rápido dificulta a ampliação de modelos baseados em durabilidade e reutilização. Por isso, empresas precisam não apenas oferecer alternativas, mas criar mecanismos que facilitem comportamentos diferentes — como recompra, revenda, reparo e devolução de produtos.
Nesse contexto, comunicação e transparência também ganham importância. Informações mais acessíveis sobre origem, composição e ciclo de vida podem ajudar consumidores a entender melhor o produto que estão comprando.
O futuro da moda circular
A transformação da indústria têxtil passa por uma combinação de design, tecnologia, rastreabilidade e novos modelos de negócio.
A própria estratégia europeia para o setor prevê medidas para tornar os produtos mais duráveis, reparáveis e recicláveis, além de estimular modelos baseados em reutilização e reparo.
Para as empresas, a questão deixa de ser apenas “como reduzir o impacto ambiental?” e passa a incluir perguntas estratégicas: como tornar a cadeia mais transparente? Como reduzir desperdícios? Como criar novas fontes de receita? E como preparar o negócio para uma indústria cada vez mais regulada e orientada por dados?
A moda circular, portanto, não representa apenas uma mudança na forma de produzir roupas. É uma transformação na maneira como a indústria cria, utiliza e captura valor.
O debate sobre o tema fez parte dos encontros exclusivos da comunidade do Programa Avançado em ESG da Saint Paul Escola de Negócios.
